(A Perdição dos Gentios) https://youtu.be/qqrUJJzg8ko
A queda não trouxe apenas alguns arranhões à humanidade, mas ruína, destruição e morte espiritual. O homem não precisa apenas de cosméticos para melhorar sua aparência; precisa de ressurreição para levantá-la da morte.
Francis Schaeffer destaca que o nosso problema não é metafísico, mas moral.157 O homem está sob a ira de Deus, por isso precisa de salvação. Não precisamos de nenhum guia espiritual ou do exemplo inspirador de algum mártir. Precisamos de um Salvador real, porque estamos sob a ira real de Deus.158
Depois que Paulo apresentou o tema da carta (Rm 1.16,17), falando do evangelho, ele passa a ressaltar a necessidade do evangelho (1.18-3.23). O apóstolo Paulo argumenta, de forma irrefutável, que tanto os gentios como os judeus sao absolutamente culpados diante de Deus. Ambos pecaram e estão destituídos da glória de Deus. Os gentios pecaram contra a revelação natural e os judeus contra a revelação especial. Ambos precisam de igual forma ser salvos e ambos só podem ser salvos pela fé em Cristo Jesus.
O texto em apreço não é apenas uma radiografia da sociedade gentílica dos dias de Paulo e um sombrio quadro do mundo pagão,159 mas também um diagnóstico sombrio da condição do homem contemporâneo. A humanidade toda está moralmente arruinada.160 Chamamos a atenção para alguns pontos:
Em primeiro lugar, Paulo rechaça a teoria de que o homem é naturalmente bom. O pensador francês Jean Jacques Rousseau estava rotundamente equivocado quando postulou que o homem é essencialmente bom. O mal não está apenas nas estruturas sociais. O mal não é apenas um subproduto do ambiente. O coração do homem é a fonte poluída da qual jorra aos borbotões toda sorte de sujeira e maldade. O caos infernal da sociedade é apenas um reflexo da malignidade do corrupto coração humano. O mundo gentio é descrito por Paulo como um antro de vícios (Rm 1.24-32).
Em segundo lugar, Paulo rejeita a ideia de que o maior problema humano é a falta de conhecimento. O problema do homem não é a ignorância da verdade de Deus, mas abafar e sufocar essa verdade. Não é o desconhecimento involuntário da verdade de Deus, mas a rejeição consciente dessa verdade. Deus se revelou ao homem, mas ele sufocou esse conhecimento, banindo Deus deliberadamente da sua vida. Adolf Pohl diz que a boa criação de Deus rebrilha para dentro de cada consciência, de modo que cada um poderia ser grato (Rm 1.20,21).161 Francis Schaeffer está certo quando diz que o homem não vive numa caverna escura.162 A criação é testemunha de Deus. A natureza revela conhecimento. Há uma voz que é ouvida onde quer que os seres humanos vivam, estejam eles com ou sem a Bíblia. E a voz da criação (SI 19.1-3). Mesmo aqueles que não dispõem da Bíblia têm conhecimento suficiente de Deus a ponto de serem indesculpáveis (At 14.17).
Em terceiro lugar, Paulo repudia a falsa mensagem de que o homem tem apenas necessidades imediatas. A pregação contemporânea apresenta uma falsa visão da queda, do pecado, do homem e da salvação. A visão bíblica de que o homem está morto em seus delitos e pecados e vive prisioneiro da carne, do mundo e do diabo não mais é proclamada na maioria dos púlpitos. A pregação contemporânea mostra que o homem tem algumas necessidades imediatas e temporais, mas não está perdido. A Bíblia, porém, diz que o homem é um ser rebelado contra Deus; está debaixo da ira de Deus e sob o seu castigo temporal e eterno. Essa é a condição de toda a humanidade (3.23). O estado dos povos é descrito por Paulo como completamente sem esperança.
Em quarto lugar, Paulo rejeita uma evangelização que não trate do núcleo do problema humano. Floresce no meio evangélico uma mensagem focada nas necessidades imediatas do homem (cura e prosperidade) e dos pretensos direitos desse homem. Os púlpitos massageiam o ego dos pecadores. Tornam-se divãs eivados da psicologia de autoajuda. Isso porque perdemos a consciência do estado de rebeldia contra Deus em que o homem se encontra. Com isso a igreja perde o fervor missionário e passa a pregar apenas em panaceia, sem tocar no âmago do problema humano, que é o pecado.
Warren Wiersbe, interpretando a passagem em apreço, cita os quatro estágios do mundo gentio culpado diante de Deus: 1) inteligência (Rm 1.18-20); 2) ignorância (1.21-23); 3) imoralidade (1.24-27); e 4) impenitência (1.28-32).163 Augustus Nicodemos, em célebre mensagem sobre o referido passo bíblico, interpretou-o, abordando três grandes assuntos: revelação, rejeição e retribuição. Examinaremos agora esses três pontos.
A revelação (1.18-20)
Paulo não se constrange de discorrer sobre a ira de Deus. Não está preocupado em ferir os melindres dos mais sensíveis. Assim como a justiça de Deus se revela no evangelho, a ira de Deus se revela desde o céu contra toda impiedade e perversão humana.
Geoffrey Wilson diz acertadamente que Deus não é indiferente ao pecado, pois este é uma afronta a sua santidade, um assalto direto à sua majestade. Assim, a ira de Deus é uma expressão que indica o justo derramamento do desfavor divino sobre o pecador.164
Cranfield tem razão ao declarar que a ira de Deus não é incompatível com o seu amor: ao contrário, é uma expressão do seu amor. E justamente porque nos ama verdadeira, séria e fielmente, que Deus está irado conosco em nossa pecaminosidade.165 Entretanto, o pleno significado da ira de Deus não deve ser visto nas desgraças que acontecem a homens pecadores no decorrer da História: a sua realidade só é verdadeiramente conhecida quando vista na sua revelação no Getsêmani e no Gólgota.166Destacaremos alguns pontos aqui:
Em primeiro lugar, a ira de Deus é justa p or causa da form a injusta que o homem se relaciona com a verdade. “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (1.18). A ira de Deus não é destempero emocional. Não é explosão de raiva. Não está eivada de caprichos. Não deve ser concebida em termos de explosões de ódio, às quais a ira, em nós, está frequentemente associada.167
A ira de Deus é sua santa repulsa ao mal, é seu desprazer dinâmico contra o pecado. Segundo E E Bruce, a ira de Deus é a reação da santidade divina à impiedade e rebelião do homem.168 John Murray explica que a ira consiste na santa reação do ser de Deus contra aquilo que é contrário à sua santidade.169
Concordo com Charles Erdman quando ele diz que não se deve associar a ira de Deus a nenhuma ideia de humana paixão, fraqueza ou vingança. Nem devemos perder de vista o universal amor de Deus. Ela é em verdade o reverso do divino amor.170 Assim, no conflito moral, o contrário de “ira” não é “amor”, mas “neutralidade”.171 https://youtu.be/nUmSmV_VdfA
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