segunda-feira, 4 de outubro de 2021

A Perdição dos Gentios

                            (A Perdição dos Gentios) https://youtu.be/qqrUJJzg8ko
A queda não trouxe apenas alguns arranhões à humanidade, mas ruína, destruição e morte espiritual. O homem não precisa apenas de cosméticos para melhorar sua aparência; precisa de ressurreição para levantá-la da morte.
Francis Schaeffer destaca que o nosso problema não é metafísico, mas moral.157 O homem está sob a ira de Deus, por isso precisa de salvação. Não precisamos de nenhum guia espiritual ou do exemplo inspirador de algum mártir. Precisamos de um Salvador real, porque estamos sob a ira real de Deus.158
Depois que Paulo apresentou o tema da carta (Rm 1.16,17), falando do evangelho, ele passa a ressaltar a necessidade do evangelho (1.18-3.23). O apóstolo Paulo argumenta, de forma irrefutável, que tanto os gentios como os judeus sao absolutamente culpados diante de Deus. Ambos pecaram e estão destituídos da glória de Deus. Os gentios pecaram contra a revelação natural e os judeus contra a revelação especial. Ambos precisam de igual forma ser salvos e ambos só podem ser salvos pela fé em Cristo Jesus.
O texto em apreço não é apenas uma radiografia da sociedade gentílica dos dias de Paulo e um sombrio quadro do mundo pagão,159 mas também um diagnóstico sombrio da condição do homem contemporâneo. A humanidade toda está moralmente arruinada.160 Chamamos a atenção para alguns pontos:
Em primeiro lugar, Paulo rechaça a teoria de que o ho­mem é naturalmente bom. O pensador francês Jean Jacques Rousseau estava rotundamente equivocado quando postulou que o homem é essencialmente bom. O mal não está apenas nas estruturas sociais. O mal não é apenas um subproduto do ambiente. O coração do homem é a fonte poluída da qual jorra aos borbotões toda sorte de sujeira e maldade. O caos infernal da sociedade é apenas um reflexo da malignidade do corrupto coração humano. O mundo gentio é descrito por Paulo como um antro de vícios (Rm 1.24-32).
Em segundo lugar, Paulo rejeita a ideia de que o maior problema humano é a falta de conhecimento. O problema do homem não é a ignorância da verdade de Deus, mas abafar e sufocar essa verdade. Não é o desconhecimento involuntário da verdade de Deus, mas a rejeição consciente dessa verdade. Deus se revelou ao homem, mas ele sufocou esse conhecimento, banindo Deus deliberadamente da sua vida. Adolf Pohl diz que a boa criação de Deus rebrilha para dentro de cada consciência, de modo que cada um poderia ser grato (Rm 1.20,21).161 Francis Schaeffer está certo quando diz que o homem não vive numa caverna escura.162 A criação é testemunha de Deus. A natureza revela conhecimento. Há uma voz que é ouvida onde quer que os seres humanos vivam, estejam eles com ou sem a Bíblia. E a voz da criação (SI 19.1-3). Mesmo aqueles que não dispõem da Bíblia têm conhecimento suficiente de Deus a ponto de serem indesculpáveis (At 14.17).
Em terceiro lugar, Paulo repudia a falsa mensagem de que o homem tem apenas necessidades imediatas. A pregação contemporânea apresenta uma falsa visão da queda, do pe­cado, do homem e da salvação. A visão bíblica de que o homem está morto em seus delitos e pecados e vive prisio­neiro da carne, do mundo e do diabo não mais é procla­mada na maioria dos púlpitos. A pregação contemporânea mostra que o homem tem algumas necessidades imediatas e temporais, mas não está perdido. A Bíblia, porém, diz que o homem é um ser rebelado contra Deus; está debai­xo da ira de Deus e sob o seu castigo temporal e eterno. Essa é a condição de toda a humanidade (3.23). O estado dos povos é descrito por Paulo como completamente sem esperança.
Em quarto lugar, Paulo rejeita uma evangelização que não trate do núcleo do problema humano. Floresce no meio evan­gélico uma mensagem focada nas necessidades imediatas do homem (cura e prosperidade) e dos pretensos direitos desse homem. Os púlpitos massageiam o ego dos pecado­res. Tornam-se divãs eivados da psicologia de autoajuda. Isso porque perdemos a consciência do estado de rebeldia contra Deus em que o homem se encontra. Com isso a igreja perde o fervor missionário e passa a pregar apenas em panaceia, sem tocar no âmago do problema humano, que é o pecado.
Warren Wiersbe, interpretando a passagem em apreço, cita os quatro estágios do mundo gentio culpado diante de Deus: 1) inteligência (Rm 1.18-20); 2) ignorância (1.21-23); 3) imoralidade (1.24-27); e 4) impenitência (1.28-32).163 Augustus Nicodemos, em célebre mensagem sobre o referido passo bíblico, interpretou-o, abordando três grandes assuntos: revelação, rejeição e retribuição. Examinaremos agora esses três pontos.
A revelação (1.18-20)
Paulo não se constrange de discorrer sobre a ira de Deus. Não está preocupado em ferir os melindres dos mais sensíveis. Assim como a justiça de Deus se revela no evangelho, a ira de Deus se revela desde o céu contra toda impiedade e perversão humana.
Geoffrey Wilson diz acertadamente que Deus não é indiferente ao pecado, pois este é uma afronta a sua santidade, um assalto direto à sua majestade. Assim, a ira de Deus é uma expressão que indica o justo derramamento do desfavor divino sobre o pecador.164
Cranfield tem razão ao declarar que a ira de Deus não é incompatível com o seu amor: ao contrário, é uma expressão do seu amor. E justamente porque nos ama verdadeira, séria e fielmente, que Deus está irado conosco em nossa pecaminosidade.165 Entretanto, o pleno significado da ira de Deus não deve ser visto nas desgraças que acontecem a homens pecadores no decorrer da História: a sua realidade só é verdadeiramente conhecida quando vista na sua revelação no Getsêmani e no Gólgota.166Destacaremos alguns pontos aqui:
Em primeiro lugar, a ira de Deus é justa p or causa da form a injusta que o homem se relaciona com a verdade. “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (1.18). A ira de Deus não é destempero emocional. Não é explosão de raiva. Não está eivada de caprichos. Não deve ser concebida em termos de explosões de ódio, às quais a ira, em nós, está frequentemente associada.167
A ira de Deus é sua santa repulsa ao mal, é seu desprazer dinâmico contra o pecado. Segundo E E Bruce, a ira de Deus é a reação da santidade divina à impiedade e rebelião do homem.168 John Murray explica que a ira consiste na santa reação do ser de Deus contra aquilo que é contrário à sua santidade.169
Concordo com Charles Erdman quando ele diz que não se deve associar a ira de Deus a nenhuma ideia de humana paixão, fraqueza ou vingança. Nem devemos perder de vista o universal amor de Deus. Ela é em verdade o reverso do divino amor.170 Assim, no conflito moral, o contrário de “ira” não é “amor”, mas “neutralidade”.171 https://youtu.be/nUmSmV_VdfA